Armadilhas da regência verbal

12/10/2008

Trouxemos as coisas que você precisa.

O vôo chegará amanhã em São Paulo.

Entrei e saí da casa em instantes.

 

Você vê algo de errado nas frases acima? Se não vê (ou vê e não sabe o que é), acaba de cair nas armadilhas da regência verbal, o capítulo da gramática que trata das relações entre os verbos e seus complementos.

 

Alguns verbos, chamados transitivos diretos, ligam-se diretamente aos complementos (objetos diretos), sem a necessidade de preposição. Assim:

 

Limpamos a casa (quem limpa, limpa alguma coisa)

Bebi o café (quem bebe, bebe alguma coisa)

Ouvia o rádio (quem ouve, ouve alguma coisa)

 

Já os transitivos indiretos ligam-se aos complementos (chamados objetos indiretos) por meio de uma preposição. Exemplos:

 

Necessito de dinheiro (quem necessita, necessita de alguma coisa)

Concordo com você (quem concorda, concorda com alguma coisa)

Luto por meus direitos (quem luta, luta por alguma coisa)

 

Agora, fique atento, pois é justamente nessa dobradinha verbo-preposição que estão as armadilhas da regência verbal. Aí vão elas:

 

 

Armadilha 1: Omitir a preposição que o verbo pede

 

A notícia desagradou os funcionários? Não, desagradou aos funcionários, pois quem desagrada, desagrada a alguém.

 

Este é o relatório que preciso? Não, é o relatório de que preciso, pois quem precisa, precisa de alguma coisa.

 

Aquela é a casa que moro? Não, é a casa em que moro, pois quem mora, mora em algum lugar.

 

Luiz é o amigo que emprestei dinheiro? Não, é o amigo a quem emprestei dinheiro, pois quem empresta, empresta a alguém.

 

 

Armadilha 2: Errar a preposição que o verbo pede

 

Chegarei amanhã em São Paulo? Não: chegarei a São Paulo, pois quem chega, chega a algum lugar.

 

Oferecemos descontos para os clientes? Não: oferecemos aos clientes, pois quem oferece, oferece a alguém. 

 

Habituei-me com esses problemas? Não, habituei-me a esses problemas, pois quem se habitua, habitua-se a alguma coisa.

 

Requeri meus direitos para a Justiça? Não, requeri à Justiça, pois quem requere, requere a alguém.

 

 

Armadilha 3: Associar verbos com regências diferentes ao mesmo complemento

 

Não concordou e rejeitou a proposta? De jeito nenhum: não concordou com a proposta e a rejeitou. Concordar pede a preposição “com”; rejeitar não pede preposição. Ambos não podem se ligar da mesma forma ao complemento “proposta”.

 

O gerente aprovará e trabalhará no projeto? Nada disso: o gerente aprovará o projeto e trabalhará nele. Aprovar não pede preposição, mas trabalhar pede “em”. Ambos não podem se ligar da mesma forma ao complemento “projeto”.

 

Entramos e saímos da casa em instantes? Nem pensar: entramos na casa e saímos dela em instantes. Quem entra, entra em, enquanto quem sai, sai de.

 

 

Se você quiser evitar essas armadilhas, só há um jeito: recorrer ao velho e bom dicionário. Consulte o significado do verbo em que você tem dúvida e verifique, nos exemplos, como ele se liga ao complemento.

 

 

 

 


Erro de concordância verbal (2)

06/10/2008

Acabo de ver na home do estadão.com.br a seguinte chamada:

Votos tucanos elegeram Kassab, diz marqueteiro. Para Raul Lima, confusão entre Alckmin e Kassab atrapalharam“.

Ôps! Olha o erro gritante de concordância verbal aí. O correto é confusão entre Alckmin e Kassab atrapalhou, pois o substantivo “confusão” é o núcleo do sujeito.

Pensei que tivesse sido distração do repórter, mas não foi. Na matéria em página interna, o erro se repete:

“… confusão entre o candidato tucano e o atual prefeito prejudicaram a campanha pela prefeitura.”

Não é à toa que “concordância verbal” seja campeão absoluto de preferência neste blog. As pessoas apanham um bocado desse tema da gramática!

Leia também o artigo Mais dicas de concordância verbal