Arquivo da categoria: Língua Portuguesa

A importância de expandir o vocabulário

Lembra dos testes de vocabulário que você fazia na escola? Aqui vai um deles, bem simplezinho:


1. Grassa:
(a) engraxa  (b) propaga  (c) encanta

2. Estertor:
(a) ruído respiratório  (b) insrumento cirúrgico  (c) tipo de profissão

3. Aquiescer:
(a) responder   (b) esclarecer   (c) consentir

4. Escusas:
(a) estranhas   (b) desculpas  (c) excluídas

E então, que tal o teste? Fácil? Difícil? Deu vontade de olhar no dicionário? Ou será que você pensou em perguntar algum significado para aquele seu tio que é craque em palavras cruzadas?

Um teste tão limitado não serve para avaliar a abrangência de seu vocabulário, é claro. Meu objetivo foi apenas fazê-lo refletir sobre a importância disso para a vida profissional e o desenvolvimento pessoal.

 

Veja, quanto mais palavras conhecemos, maior é nossa capacidade de expressão e compreensão da realidade, pois é por meio das palavras que adquirimos conhecimento.

 

Um estudo feito nos Estados Unidos demonstra, inclusive, que há uma ligação direta entre o tamanho do vocabulário das pessoas e a posição hierárquica que ocupam na empresa. Segundo essa pesquisa, profissionais que têm ocupações menos qualificadas dominam até 5 mil palavras; os que têm cargo de gerência, até 50 mil palavras; e os altos executivos dominam mais de 50 mil palavras.

 

O ideal é que nosso vocabulário esteja em constante expansão. Para isso, é fundamental cultivar o hábito da leitura, mas a boa leitura: jornais de grande circulação, livros de qualidade, revistas bem conceituadas. Mantenha um dicionário por perto e procure o significado de palavras que não conhece. E já que você consultará o dicionário, memorize a grafia do vocábulo. Conhecer muitas palavras é bom, escrevê-las corretamente é ainda melhor.

Palavras e estão para as idéias como os tijolos estão para as construções. Algumas centenas de tijolos bastam para fazer uma casa de quarto-sala-cozinha-banheiro, mas milhares são necessários para erguer uma catedral. E para edificar um vasto conhecimento e idéias sofisticadas, de quantas palavras você precisaria? Pense nisso.

Agora, confira as alternativas corretas:
1b; 2a; 3c; 4b

 

Erro de concordância verbal com porcentagem

Esta pérola saiu no jornal O Estado de São Paulo de 8 de agosto. É o título de uma matéria do caderno Cidades:

“Violência contra a mulher – 61,5% das agredidas sofre ataque diário”

O correto é “sofrem”, para concordar com o sujeito ”61,5% das agredidas”, que está no plural. Fica assim: 61,5% das agredidas sofrem..

Mas vamos aproveitar o gancho para falar de concordância verbal envolvendo porcentagens, que sempre levanta dúvidas. Há três situações possíveis:

1. Quando se menciona o “todo” do qual é extraída a porcentagem, o verbo concorda com a expressão do “todo”. Por exemplo: Apenas 1% dos candidatos foram aprovados. Essa concordância está correta, pois “foram aprovados” deve concordar com “candidatos”, que é o “todo” – e está no plural. Veja mais estes exemplos:
Cerca de 10% da verba foi liberada
32% dos habitantes da cidade emigraram
Foram analisadas
60% das respostas da pesquisa

2. Quando não se menciona o “todo”, o verbo concorda com o número da porcentagem. Por exemplo: 80% votaram em José da Silva. Mais exemplos:
1% acredita nos políticos
60% apóiam a Lei Seca

3. Quando se usa uma expressão que designadora do numeral, o verbo concorda com a expressão. Ok, ok, isso aqui parece complicado, mas analise o exemplo que você saca rápido: Aquele 1% de eleitores acredita nos políticos. Veja, aqui o verbo “acredita” concorda com “aquele”, que é uma expressão designadora do numeral “1″. Mais exemplos:
Nossos 15% da comissão estão garantidos
Este 1% dos entrevistados acredita nos políticos 

Parece complicado, mas tem lá sua lógica… E em português, entender a lógica é quase todo caminho andado. Veja também: mais dicas de concordância verbal.

Por que, por quê, porque ou porquê?

Essa nossa língua portuguesa é mesmo cheia de sutilezas… Imagine só, quatro maneiras diferentes de escrever a mesma coisa! É nessas horas que a gente fica com inveja de quem fala inglês e só precisa usar duas palavras (aliás, bem diferentes) para a maioria das situações: why e because. Simples! Mas nós, que falamos o idioma de Camões, temos que entender essa barafúrdia. Bem, vamos lá.

 

1. Usa-se “por que”:

a. Nas perguntas: 

Por que você não me ligou ontem?

Por que razão eu deveria reconsiderar?

Por que é melhor vender a prazo do que à vista?

Por que você quer saber?

 

b. Sempre que ele puder ser substituído pelas expressões “pelo qual”, “o motivo pelo qual” e “a razão pela qual”:

Não sabemos por que (o motivo pelo qual) ela faltou ao trabalho hoje..

Gostaria de saber por que (a razão pela qual) estamos atrasados.

Eis por que (o motivo pelo qual) eu não pude vir ontem.

Não sabemos a justificativa por que (pela qual) o pedido foi recusado.

A causa por que (pela qual) lutamos é justa.

As alternativas por que (pelas quais) optamos são inviáveis.

 

 

2. Usa-se “por quê”:

Quando o “por que” estiver no final da frase. Exemplos:

Não haverá reunião por quê?

As coisas não saíram como previ, não sei por quê.

Estamos fora da concorrência e nem imaginamos por quê.

 

Dica: na linguagem falada, o uso do “por quê” no final da frase é bastante comum. Já na linguagem escrita, é recomendável não usar essa forma nas perguntas, pois ela soa de forma agressiva. Sinta a diferença:

Você não pode vir à reunião por quê?

Por que você não pode vir à reunião?

 

 

3. Usa-se “porque”:

Quando ele for equivalente a “pois” ou “pelo fato de que”:

Adiamos o encontro porque (pois) surgiu um imprevisto.

Porque (pelo fato de que) o dólar subiu, tivemos de reajustar os preços.

A empresa trocou de fornecedor porque (pois) precisava de mais agilidade.

 

 

4. Usa-se porquê

Quando ele tiver a função de substantivo e puder ser substituído por “motivo”, “causa” ou “razão”:

Ainda não entendo o porquê (o motivo) da sua decisão.

Convocamos uma reunião para que o departamento jurídico explique os seus porquês (as suas razões).

O porquê (a causa) desse mal-entendido terá de ser esclarecido.

 

Sou capaz de apostar que você vai esquecer da maioria dessas regras assim que clicar no próximo link… E não o culpo por isso, elas são meio encardidas mesmo. Mas se você ficar em dúvida quando tiver de usar por que & Cia, corra aqui, ok?

Abaixo o gerundismo!

 

Certa vez, numa loja de presentes, perguntei à vendedora se determinado artigo estava disponível em cores diferentes da exibida na vitrine. Ela respondeu: “Um minutinho por favor, estarei verificando o estoque”. Logo depois, voltava para me dizer: “Infelizmente não vamos estar tendo o produto nessas cores que a senhora pediu…” Ainda bem que a loja não tinha o que eu procurava, pois eu não agüentaria ouvir a fala afetada da vendedora por muito tempo. Por que não dizer simplesmente “vou verificar o estoque” ou “não temos as cores a senhora pediu”?

 

Eis aí um típico exemplo de gerundismo, um vício de linguagem que, apesar de duramente combatido, ainda sobrevive na fala de muita gente. Na agência bancária, o gerente diz que “vai estar solicitando” o meu extrato. No atendimento telefônico, alguém anuncia que “vai estar transferindo” a ligação para o setor competente. No restaurante, o garçom pergunta se eu gostaria de “estar experimentando” a especialidade da casa.

 

Parece que as pessoas falam assim porque acham bonito, chique ou mais educado dizer “vou estar tendo” em lugar de simplesmente “tenho”. Só que, em vez de demonstrar boa educação e cultura, estão falando abobrinha. A praga do gerundismo origina-se de erros de tradução dos manuais de telemarketing, importados dos EUA. Algum tradutor perneta deve ter visto uma frase do tipo “I will be calling” e mandou ver um “estarei ligando” na tradução, quando o certo seria apenas “vou ligar“.

 

Bom, chega de bronca. Vamos falar sobre o gerúndio corretamente empregado, que é o que realmente interessa.

 

Só para relembrar, gerúndio é uma forma verbal que descreve uma ação em curso – ou seja, algo que está, estará ou esteve acontecendo. Exemplos de verbos no gerúndio: levando, perdendo, fingindo, compondo.

 

Sozinho, o gerúndio não faz sentido; por isso, precisa ser associado com outros verbos que indicam a pessoa, o tempo e o modo da ação. Por exemplo:

Ela está trabalhando duro esta semana.
Estive lendo a noite inteira.
Amanhã, a esta hora, estaremos viajando para a França.

É nessa associação que o pessoal exagera, criando formas rocambolescas para dizer coisas simples. A associação dos verbos vou, estar e tendo, por exemplo, só é adequada para descrever uma ação contínua futura. Se alguém perguntar o que você estará fazendo amanhã de manhã, você poderá responder, com toda propriedade: “vou estar trabalhando” ou “estarei trabalhando”, o que é ainda melhor. Agora, se alguém pergunta se você tem um telefone celular para emprestar, não tem nada que dizer “sim, vou estar tendo”: diga simplesmente “tenho”, ora bolas.  

 

 Pense duas vezes antes de usar o gerúndio. Se em vez de dizer “vou estar ligando” você puder dizer “vou ligar”, fique com a segunda opção.O uso inadequado do gerúndio está para a língua portuguesa assim como o babado no punho da camisa está para a moda: nada a ver!

 

Veja também: artigo sobre vícios de linguagem

Onde você põe o onde?

Onde é uma palavra que transmite a idéia de localização. Equivale a dizer e o lugar em que. Observe esses exemplos:

Moro onde (no lugar em que) minha família sempre morou.
Onde (o lugar em que) guardei o documento é seguro.
De onde (o lugar em que) vim isso não existe.
Onde (em que lugar) você estava?

Até aí, não falei nenhuma novidade, não é? O problema é que muita gente usa o onde como se fosse um curinga do baralho, ou seja, algo que cabe em qualquer situação para promover a ligação de idéias. Ao fazer isso, a pessoa não só comete erros gramaticais como também constrói frases capengas, que chegam a demonstrar falta de cultura. Veja agora algumas situações típicas do uso incorreto do onde.

Errado: Temos várias opções em produtos, onde os mais caros são financiados em três vezes.
Correto: Temos várias opções em produtos, entre os quais (ou dos quais) os mais caros são financiados em três vezes.

Errado: A empresa onde presto serviços me paga todo final de mês.
Correto: A empresa para a qual presto serviços me paga todo final de mês.

Errrado: Na situação onde me encontro já não há nada mais a fazer.
Correto: Na situação em que me encontro já não há nada mais a fazer.

Errado: No parecer do nosso jurídico, onde é feita uma análise do caso, a multa não é aplicável.
Correto: No parecer do nosso jurídico, no qual é feita uma análise do caso, a multa não é aplicável.

Errado: A entrega está atrasada, onde se conclui que deve ter ocorrido algum problema.
Correto: A entrega está atrasada, de modo quese (ou logo) se conclui que deve ter ocorrido algum problema.

Errado: Este aparelho, onde a mais moderna tecnologia é utilizada, custa menos do que você imagina.
Correto: Este aparelho, no qual a mais moderna tecnologia é utilizada, custa menos do que você imagina.

Errado: O argumento onde o deputado se apóia é infundado.
Correto: O argumento em que (ou no qual) o cliente se baseia é infundado.

Errado: Você é a pessoa onde deposito minha total confiança.
Correto: Você é a pessoa em que (ou na qual) deposito minha total confiança.

Dica: Qual é a diferença entre onde e aonde?
Onde, como você acaba de ver, faz referência a uma localização. É usado quando estiver implícita a idéia de o lugar em que. Já o aonde faz referência a um destino, uma direção. É usado quando estiver implícita a idéia de o lugar a que ou o lugar para que. Veja só:

Aonde (a que lugar) esses juros altos irão nos levar!
Você pretende ir aonde (para que lugar)?
Aonde (o lugar a que) vou é um lugar desconhecido.

A partir de agora, veja lá onde você põe o onde, heim?