Resumo da reforma ortográfica

15/02/2009

Repasso a você, caro leitor, uma prática tabela com as mudanças da reforma ortográfica que entrou em vigor no começo deste ano. O material foi elaborado pelo professor Sérgio Nogueira e foi originalmente publicado no G1 – portal da Rede Globo. Sugestão: imprima a tabela e cole-a na primeira página da agenda, ou no mural da sua sala de trabalho, ou na parede ao lado do computador… Até a gente se acostumar com as novas regras, é bom ter onde tirar as dúvidas.

 

Leia também o artigo “Um pouco além da reforma ortográfica”

 

Clique aqui para acessar a tabela 

 

 


Onde você põe o onde?

23/12/2008

O advérbio onde é uma palavra que transmite a idéia de localização. Equivale a dizer o lugar em que. Observe esses exemplos:

Onde (o lugar em que) guardei o documento é seguro.

Moro onde (no lugar em que) minha família sempre morou.
De onde (o lugar em que) vim isso não existe.
Onde (em que lugar) você estava?

Até aí, não falei nenhuma novidade, não é? O problema é que muita gente usa o onde como se fosse um curinga do baralho, ou seja, algo que cabe em qualquer situação para promover a ligação de idéias. Ao fazer isso, a pessoa não só comete erros gramaticais como também constrói frases capengas, que chegam a demonstrar falta de cultura. Veja agora algumas situações típicas do uso incorreto do onde.

Errado: Temos várias opções, onde a mais viável é esta que lhe apresentei.
Correto: Temos várias opções, das quais ( ou entre as quais) a mais viável é esta que lhe apresentei.

Errado: A empresa onde presto serviços me paga todo final de mês.
Correto: A empresa para a qual presto serviços me paga todo final de mês.

Errrado: Na situação onde estou já não há nada mais a fazer.
Correto: Na situação em que estou já não há nada mais a fazer.

Errado: A entrega está atrasada, onde se conclui que deve ter ocorrido algum problema.
Correto: A entrega está atrasada, de modo que (ou logo) se conclui que deve ter ocorrido algum problema.

Errado: Este aparelho, onde a mais moderna tecnologia é utilizada, é também muito barato. Correto: Este aparelho, no qual a mais moderna tecnologia é utilizada, é também muito barato.


Errado: O argumento onde o deputado se apóia é infundado.
Correto: O argumento em que (ou no qual) o cliente se baseia é infundado.

Errado: Você é a pessoa onde deposito minha total confiança.
Correto: Você é a pessoa em que (ou na qual) deposito minha total confiança.

Muita gente também faz confusão com as palavras onde e aonde, que não têm o mesmo sentido. E qual seria a diferença entre elas? Como você acaba de ver, onde faz referência a uma localização. É usado quando estiver implícita a idéia de o lugar em que. Já o aonde faz referência a um destino, uma direção. É usado quando estiver implícita a idéia de o lugar a que ou o lugar para que. Veja só:

Aonde (a que lugar) esses juros altos irão nos levar!
Você pretende ir aonde (a que lugar)?
Aonde (o lugar a que) vou é um lugar desconhecido.

A partir de agora, veja lá onde você põe o onde, heim?


Armadilhas da regência verbal

12/10/2008

Trouxemos as coisas que você precisa.

O vôo chegará amanhã em São Paulo.

Entrei e saí da casa em instantes.

 

Você vê algo de errado nas frases acima? Se não vê (ou vê e não sabe o que é), acaba de cair nas armadilhas da regência verbal, o capítulo da gramática que trata das relações entre os verbos e seus complementos.

 

Alguns verbos, chamados transitivos diretos, ligam-se diretamente aos complementos (objetos diretos), sem a necessidade de preposição. Assim:

 

Limpamos a casa (quem limpa, limpa alguma coisa)

Bebi o café (quem bebe, bebe alguma coisa)

Ouvia o rádio (quem ouve, ouve alguma coisa)

 

Já os transitivos indiretos ligam-se aos complementos (chamados objetos indiretos) por meio de uma preposição. Exemplos:

 

Necessito de dinheiro (quem necessita, necessita de alguma coisa)

Concordo com você (quem concorda, concorda com alguma coisa)

Luto por meus direitos (quem luta, luta por alguma coisa)

 

Agora, fique atento, pois é justamente nessa dobradinha verbo-preposição que estão as armadilhas da regência verbal. Aí vão elas:

 

 

Armadilha 1: Omitir a preposição que o verbo pede

 

A notícia desagradou os funcionários? Não, desagradou aos funcionários, pois quem desagrada, desagrada a alguém.

 

Este é o relatório que preciso? Não, é o relatório de que preciso, pois quem precisa, precisa de alguma coisa.

 

Aquela é a casa que moro? Não, é a casa em que moro, pois quem mora, mora em algum lugar.

 

Luiz é o amigo que emprestei dinheiro? Não, é o amigo a quem emprestei dinheiro, pois quem empresta, empresta a alguém.

 

 

Armadilha 2: Errar a preposição que o verbo pede

 

Chegarei amanhã em São Paulo? Não: chegarei a São Paulo, pois quem chega, chega a algum lugar.

 

Oferecemos descontos para os clientes? Não: oferecemos aos clientes, pois quem oferece, oferece a alguém. 

 

Habituei-me com esses problemas? Não, habituei-me a esses problemas, pois quem se habitua, habitua-se a alguma coisa.

 

Requeri meus direitos para a Justiça? Não, requeri à Justiça, pois quem requere, requere a alguém.

 

 

Armadilha 3: Associar verbos com regências diferentes ao mesmo complemento

 

Não concordou e rejeitou a proposta? De jeito nenhum: não concordou com a proposta e a rejeitou. Concordar pede a preposição “com”; rejeitar não pede preposição. Ambos não podem se ligar da mesma forma ao complemento “proposta”.

 

O gerente aprovará e trabalhará no projeto? Nada disso: o gerente aprovará o projeto e trabalhará nele. Aprovar não pede preposição, mas trabalhar pede “em”. Ambos não podem se ligar da mesma forma ao complemento “projeto”.

 

Entramos e saímos da casa em instantes? Nem pensar: entramos na casa e saímos dela em instantes. Quem entra, entra em, enquanto quem sai, sai de.

 

 

Se você quiser evitar essas armadilhas, só há um jeito: recorrer ao velho e bom dicionário. Consulte o significado do verbo em que você tem dúvida e verifique, nos exemplos, como ele se liga ao complemento.

 

 

 

 


Mais dicas de concordância verbal

14/09/2008

Prometi publicar um post com outras dicas sobre concordância verbal, e aí vão elas. Divirta-se!

        

 

Faz duas horas ou fazem duas horas?

Sempre que o verbo fazer é usado para significar passagem de tempo, fica no singular. A mesma regra vale para os verbos haver e dar quando empregados na mesma situação:

 

. Faz duas horas que estou esperando.

. Os funcionários não se reuniam havia três meses.

. Ontem fez dois anos que mudei de emprego.

. Deu três horas e o caminhão não chegou.

 

 

É duas horas ou são duas horas?

O certo é são duas horas. O verbo ser, usado para indicar passagem de tempo, concorda com o numeral. O mesmo vale para datas e distâncias.

 

. Era 1h30 quando o pessoal departamento saiu para o almoço.

. Serão 10 da manhã quando o jogo terminar.

. De São Paulo a Campinas são 100 quilômetros.

. Eram 15 de setembro quando foi assinado o contrato.

 

Atenção: quando se inclui na frase a palavra dia, o verbo concorda com dia:

.Era dia 15 de setembro quando foi assinado o contrato.

 

 

Há ou hão?

Sempre que o verbo haver é empregado com o sentido de existir, fica no singular.

 

. certas coisas que acontecem e não têm explicação.

. Em minhas contas, havia umas 100  pessoas na fila.

 

 

Vende-se casas ou vendem-se casas?

Os gramáticos consideram correto vendem-se casas, sob o argumento de que o “se” é um pronome apassivador. Ou seja: a expressão é uma maneira alternativa de dizer casas são vendidas, que é uma oração em voz passiva. Sempre que surgirem situações semelhantes, coloque a expressão na voz passiva e veja o que dá. Os exemplos explicam tudo:

 

. Alugam-se galpões

Se você mudar a oração para a voz passiva, ela ficará galpões são alugados. Se galpões são alugados, então alugam-se galpões.

 

. Oferecem-se vagas.

Na voz passiva, a frase fica vagas são oferecidas. Se vagas são oferecidas, oferecem-se vagas.

 

. Aceitam-se reservas até 18h00.

Na voz passiva, a expressão fica reservas são aceitas. Se reservas são aceitas, então aceitam-se reservas.

 

. Procuram-se  voluntários.

Na voz passiva: voluntários são procurados. Se voluntários são procurados, então procuram-se voluntários.

 

 

Precisa-se de funcionários ou precisam-se de funcionários?

Embora esse caso seja muito parecido com o anterior (vendem-se casas), não se engane: o correto, aqui, é precisa-se de funcionários. Isso porque a inversão para a voz passiva não dá certo: funcionários são precisos. Esquisitíssimo, não é? Sempre que a inversão não der certo, o verbo não vai para o plural, pois, na verdade, o “se” indica que o sujeito é indeterminado. Ou seja: alguém não determinado precisa de funcionários. Veja mais estes exemplos:

 

. Necessita-se de doações.

A inversão para a voz passiva fica estranha: doações são necessitadas. Então trata-se de sujeito indeterminado e o verbo fica no singular.

 

. Come-se bem nos restaurantes da cidade.

A inversão da frase para a voz passiva não tem pé nem cabeça: nestes quiosques são comidos bem. Logo, o sujeito é indeterminado e o verbo fica no singular.

 

. Trata-se de pessoas confiáveis.

A inversão para a voz passiva dá pessoas confiáveis são tratadas. Nada a ver! Eis outro caso de sujeito indeterminado, e o verbo fica no singular.

 

 

O grupo de alunos vai ou vão?

O certo é o grupo de alunos vai. Toda vez que o sujeito inclui um substantivo coletivo (grupo, bando, multidão, coleção etc), o verbo concorda com o coletivo.

 

. Uma multidão de clientes formava fila na porta da loja.

. A assembléia de funcionários está votando pelo fim da greve.

 

 

A maioria das pessoas vai ou vão?

A gramática admite as duas possibilidades. No primeiro caso, o verbo concorda com o termo a maioria; no segundo, concorda com a expressão das pessoas. O uso de um ou de outro depende daquilo que se quer destacar – se é a maioria ou se são as pessoas. A mesma regra vale para expressões similares, como a maior parte de, grande parte de, metade de, grande número de. Veja os exemplos:

 

. A maioria das pessoas prefere (ou preferem) fazer compras parceladas sem juros.

. Grande parte das encomendas está (ou estão) com atrasos.

. A metade das vendas foi (ou foram) para clientes pessoa física.

. A maior parte dos negócios aconteceu (ou aconteceram) no segundo semestre.
Veja também: concordância com porcentagens


Por que, por quê, porque ou porquê?

03/07/2008

Essa nossa língua portuguesa é mesmo cheia de sutilezas… Imagine só, quatro maneiras diferentes de escrever a mesma coisa! É nessas horas que a gente fica com inveja de quem fala inglês e só precisa usar duas palavras (aliás, bem diferentes) para a maioria das situações: why e because. Simples! Mas nós, que falamos o idioma de Camões, temos que entender essa barafúrdia. Bem, vamos lá.

 

1. Usa-se “por que”:

a. Nas perguntas: 

Por que você não me ligou ontem?

Por que razão eu deveria reconsiderar?

Por que é melhor vender a prazo do que à vista?

Por que você quer saber?

 

b. Sempre que ele puder ser substituído pelas expressões “pelo qual”, “o motivo pelo qual” e “a razão pela qual”:

Não sabemos por que (o motivo pelo qual) ela faltou ao trabalho hoje..

Gostaria de saber por que (a razão pela qual) estamos atrasados.

Eis por que (o motivo pelo qual) eu não pude vir ontem.

Não sabemos a justificativa por que (pela qual) o pedido foi recusado.

A causa por que (pela qual) lutamos é justa.

As alternativas por que (pelas quais) optamos são inviáveis.

 

 

2. Usa-se “por quê”:

Quando o “por que” estiver no final da frase. Exemplos:

Não haverá reunião por quê?

As coisas não saíram como previ, não sei por quê.

Estamos fora da concorrência e nem imaginamos por quê.

 

Dica: na linguagem falada, o uso do “por quê” no final da frase é bastante comum. Já na linguagem escrita, é recomendável não usar essa forma nas perguntas, pois ela soa de forma agressiva. Sinta a diferença:

Você não pode vir à reunião por quê?

Por que você não pode vir à reunião?

 

 

3. Usa-se “porque”:

Quando ele for equivalente a “pois” ou “pelo fato de que”:

Adiamos o encontro porque (pois) surgiu um imprevisto.

Porque (pelo fato de que) o dólar subiu, tivemos de reajustar os preços.

A empresa trocou de fornecedor porque (pois) precisava de mais agilidade.

 

 

4. Usa-se porquê

Quando ele tiver a função de substantivo e puder ser substituído por “motivo”, “causa” ou “razão”:

Ainda não entendo o porquê (o motivo) da sua decisão.

Convocamos uma reunião para que o departamento jurídico explique os seus porquês (as suas razões).

O porquê (a causa) desse mal-entendido terá de ser esclarecido.

 

Sou capaz de apostar que você vai esquecer da maioria dessas regras assim que clicar no próximo link… E não o culpo por isso, elas são meio encardidas mesmo. Mas se você ficar em dúvida quando tiver de usar por que & Cia, corra aqui, ok?


Abaixo o gerundismo!

30/06/2008

 

Certa vez, numa loja de presentes, perguntei à vendedora se determinado artigo estava disponível em cores diferentes da exibida na vitrine. Ela respondeu: “Um minutinho por favor, estarei verificando o estoque”. Logo depois, voltava para me dizer: “Infelizmente não vamos estar tendo o produto nessas cores que a senhora pediu…” Ainda bem que a loja não tinha o que eu procurava, pois eu não agüentaria ouvir a fala afetada da vendedora por muito tempo. Por que não dizer simplesmente “vou verificar o estoque” ou “não temos as cores a senhora pediu”?

 

Eis aí um típico exemplo de gerundismo, um vício de linguagem que, apesar de duramente combatido, ainda sobrevive na fala de muita gente. Na agência bancária, o gerente diz que “vai estar solicitando” o meu extrato. No atendimento telefônico, alguém anuncia que “vai estar transferindo” a ligação para o setor competente. No restaurante, o garçom pergunta se eu gostaria de “estar experimentando” a especialidade da casa.

 

Parece que as pessoas falam assim porque acham bonito, chique ou mais educado dizer “vou estar tendo” em lugar de simplesmente “tenho”. Só que, em vez de demonstrar boa educação e cultura, estão falando abobrinha. A praga do gerundismo origina-se de erros de tradução dos manuais de telemarketing, importados dos EUA. Algum tradutor perneta deve ter visto uma frase do tipo “I will be calling” e mandou ver um “estarei ligando” na tradução, quando o certo seria apenas “vou ligar“.

 

Bom, chega de bronca. Vamos falar sobre o gerúndio corretamente empregado, que é o que realmente interessa.

 

Só para relembrar, gerúndio é uma forma verbal que descreve uma ação em curso – ou seja, algo que está, estará ou esteve acontecendo. Exemplos de verbos no gerúndio: levando, perdendo, fingindo, compondo.

 

Sozinho, o gerúndio não faz sentido; por isso, precisa ser associado com outros verbos que indicam a pessoa, o tempo e o modo da ação. Por exemplo:

Ela está trabalhando duro esta semana.
Estive lendo a noite inteira.
Amanhã, a esta hora, estaremos viajando para a França.

É nessa associação que o pessoal exagera, criando formas rocambolescas para dizer coisas simples. A associação dos verbos vou, estar e tendo, por exemplo, só é adequada para descrever uma ação contínua futura. Se alguém perguntar o que você estará fazendo amanhã de manhã, você poderá responder, com toda propriedade: “vou estar trabalhando” ou “estarei trabalhando”, o que é ainda melhor. Agora, se alguém pergunta se você tem um telefone celular para emprestar, não tem nada que dizer “sim, vou estar tendo”: diga simplesmente “tenho”, ora bolas.  

 

 Pense duas vezes antes de usar o gerúndio. Se em vez de dizer “vou estar ligando” você puder dizer “vou ligar”, fique com a segunda opção.O uso inadequado do gerúndio está para a língua portuguesa assim como o babado no punho da camisa está para a moda: nada a ver!

 

Veja também: artigo sobre vícios de linguagem


Onde você põe o onde?

30/06/2008

Onde é uma palavra que transmite a idéia de localização. Equivale a dizer e o lugar em que. Observe esses exemplos:

Moro onde (no lugar em que) minha família sempre morou.
Onde (o lugar em que) guardei o documento é seguro.
De onde (o lugar em que) vim isso não existe.
Onde (em que lugar) você estava?

Até aí, não falei nenhuma novidade, não é? O problema é que muita gente usa o onde como se fosse um curinga do baralho, ou seja, algo que cabe em qualquer situação para promover a ligação de idéias. Ao fazer isso, a pessoa não só comete erros gramaticais como também constrói frases capengas, que chegam a demonstrar falta de cultura. Veja agora algumas situações típicas do uso incorreto do onde.

Errado: Temos várias opções em produtos, onde os mais caros são financiados em três vezes.
Correto: Temos várias opções em produtos, entre os quais (ou dos quais) os mais caros são financiados em três vezes.

Errado: A empresa onde presto serviços me paga todo final de mês.
Correto: A empresa para a qual presto serviços me paga todo final de mês.

Errrado: Na situação onde me encontro já não há nada mais a fazer.
Correto: Na situação em que me encontro já não há nada mais a fazer.

Errado: No parecer do nosso jurídico, onde é feita uma análise do caso, a multa não é aplicável.
Correto: No parecer do nosso jurídico, no qual é feita uma análise do caso, a multa não é aplicável.

Errado: A entrega está atrasada, onde se conclui que deve ter ocorrido algum problema.
Correto: A entrega está atrasada, de modo quese (ou logo) se conclui que deve ter ocorrido algum problema.

Errado: Este aparelho, onde a mais moderna tecnologia é utilizada, custa menos do que você imagina.
Correto: Este aparelho, no qual a mais moderna tecnologia é utilizada, custa menos do que você imagina.

Errado: O argumento onde o deputado se apóia é infundado.
Correto: O argumento em que (ou no qual) o cliente se baseia é infundado.

Errado: Você é a pessoa onde deposito minha total confiança.
Correto: Você é a pessoa em que (ou na qual) deposito minha total confiança.

Dica: Qual é a diferença entre onde e aonde?
Onde, como você acaba de ver, faz referência a uma localização. É usado quando estiver implícita a idéia de o lugar em que. Já o aonde faz referência a um destino, uma direção. É usado quando estiver implícita a idéia de o lugar a que ou o lugar para que. Veja só:

Aonde (a que lugar) esses juros altos irão nos levar!
Você pretende ir aonde (para que lugar)?
Aonde (o lugar a que) vou é um lugar desconhecido.

A partir de agora, veja lá onde você põe o onde, heim?


O que você faz com o cujo?

30/06/2008

Ah, como eu gostaria de saber no que você pensou com a minha pergunta… Aqui para nós: para quem desconhece o significado e o emprego dessa palavra, a pergunta pode até parecer indecorosa. Mas indecorosas mesmo são as frases em que o dito cujo não é usado.

Cujo é uma palavra que dificilmente freqüenta as nossas conversas, pois carrega um formalismo pouco comum para a linguagem falada. Na linguagem escrita, porém, ele faz muita falta – uma falta que resulta em frases horrorosas como as que você verá abaixo. Pertencente à classe gramatical dos pronomes, cujo equivale às expressões “de que”, “de quem”, “do qual”. Veja os exemplos:

Em vez de: A empresa da qual o representante nos fez uma visita…
Escreva: A empresa cujo representante nos fez uma visita…

Em vez de: O colega que a filha dele casa-se mês que vem…
Escreva: O colega cuja filha casa-se mês que vem…

Em vez de: A lista que os preços foram reajustados recentemente…
Escreva: A lista cujos preços foram reajustados recentemente…

Não é tão difícil assim, vai… Até que dá para falar “a amiga que eu vou na casa dela”, mas escrever JAMAIS!!! Agora, vou complicar um pouquinho. É que há casos em que o cujo vem acompanhado de uma preposição (em, de, com). Isso acontece por causa do verbo da frase. Se o verbo pede preposição, ela aparece junto com o dito cujo. Veja os exemplos que você vai entender:

Em vez de: Aquela empresa que estivemos em sua sede ontem…
Escreva: Aquela empresa em cuja sede estivemos ontem…
Por quê: O verbo “estivemos” pede a preposição “em” (estivemos em)

Em vez de: A amiga do qual é o casamento que iremos na próxima semana…
Escreva: A amiga a cujo casamento iremos na próxima semana…
Por quê: “Iremos” pede a preposição “a” (iremos a)

Em vez de: A marca a qual concorremos com seus produtos diretamente…
Escreva: A marca com cujos produtos concorremos diretamente…
Por quê: “Concorremos” pede a preposição “com” (concorremos com)

Em vez de: O produto que estão reclamando de aumento…
Escreva: O produto de cujo aumento estão reclamando…
Por quê: “Estão reclamando” pede a preposição “de” (reclamando de)

Cujo pode até ser uma palavra feia. Mas usá-la vai deixar você bonito na foto.


Evite frases de duplo sentido

30/06/2008

As pessoas às vezes se distraem e escrevem coisas que deixam em dúvida quem lê os seus textos. Neste artigo, dou alguns exemplos de frases imprecisas e/ou ambíguas (de duplo sentido) que tenho visto por aí, muitas delas em jornais e revistas, para você ver como esse tipo de construção às vezes passa batido. Veja estes exemplos:

 

1. O vendedor disse ao cliente que seu preço estava incorreto
Do jeito que a frase está escrita, não é possível saber se o preço incorreto era o do vendedor ou o do cliente. Para não ter de explicar que focinho de porco não é tomada, é melhor reestruturar a frase de modo que a ambigüidade desapareça. Veja de quantas maneiras podemos dizer a mesma coisa, sem causar confusão:

O vendedor disse que o preço dado ao cliente estava incorreto.
O vendedor disse estar incorreto o preço que deu cliente.

Ou….
O cliente disse que o preço por ele recebido estava incorreto.
O cliente disse estar incorreto o preço que recebeu.

2. Cresce o consumo de suco feito de soja e iogurte.
O que se entende aqui é que cresceu o consumo de uma espécie de suco que mistura soja e iogurte. Para evitar o mal-entendido, a frase deveria ter a seguinte redação: Cresce o consumo de iogurte e de suco feito de soja.

3. Carlos pediu a José para assinar o contrato.

A frase dá margem a duas interpretações diferentes: 1) Carlos pediu que José assinasse o contrato; 2) Carlos pediu que José o deixasse assinar o contrato. Percebeu a diferença? Afinal, não se sabe quem assina o contrato! Duas redações alternativas para essa frase seriam: Carlos pediu a José que assinasse o contrato ou Carlos pediu para assinar o contrato a José.

 

4. Prédio da Unilever será implodido em Valinhos.

O sentido da frase aqui só não é ambíguo por causa do contexto. Ninguém imaginaria que o prédio da Unilever seria transportado até Valinhos e lá implodido, mas é isso que a frase está dizendo: que a implosão do prédio será em Valinhos. Uma redação correta para esse texto é: Prédio da Unilever em Valinhos será implodido.


5. Os representantes ficam à espera de clientes para ser contatados.

A construção da frase é confusa e deixa o leitor com a seguinte dúvida: a quem se refere a expressão “ser contatados”, aos representantes ou aos clientes? Para não dar margem a dupla interpretação, das duas uma: Os representantes ficam à espera de clientes para contatar ou Os representantes ficam à espera de ser contatados por clientes.


6. Testemunhas viram o homem passar pela janela.

O que se quis dizer com essa frase não é nada do que você entendeu. Não foi o homem que passou pela janela, mas as testemunhas que viram, pela janela, o homem passar. Uma redação mais clara seria: Pela janela, testemunhas viram o homem passar.


7. Torcedores botaram fogo no depósito que abalou as estruturas do estádio.

Não foi o depósito que abalou as estruturas do estádio, mas o fato de terem colocado fogo nele. O certo é: Torcedores botaram fogo no depósito, o que abalou as estruturas do estádio.

 

8. Papa abençoa fiéis do hospital.

O que se entende é que o papa abençoou os fiéis que estavam no hospital. Mas o que aconteceu foi que, do hospital, ele deu sua bênção aos fiéis. O certo, então, seria: Do hospital, papa abençoa fiéis.

Fique ligado para não escrever frases de duplo sentido! Antes de enviar documentos importantes, cartas, propostas ou e-mails ao destinatário, releia seu texto atentamente. Certifique-se de que suas frases são claras e precisas, não deixando margem a dúvida ou má interpretação. Peça a opinião de um colega se necessário.


Acerte na crase… para sempre!

30/06/2008

É incrível como se encontram erros de crase em anúncios, letreiros, faixas e placas comerciais expostos nas ruas. É preços “à partirde aqui, vendas “à prazo” acolá, fogão “à gás” mais adiante… Um festival de aberrações!

Na verdade, o erro no uso da crase é daqueles para que pouca gente liga, pois é um equívoco que não compromete o sentido de uma frase, não causa mal-entendido nem contradições. Mas para você que está empenhado em escrever corretamente e com clareza, a crase é como a “cereja do pudim”. É o detalhe que revela uma pessoa atenta e cuidadosa. E para ter um bom texto, realmente, é preciso dar muita atenção aos detalhes!

Para que você entenda a lógica da crase, é preciso que relembremos uma regrinha. Vamos lá, faça uma força. Volte aos seus tempos de ginásio e veja seu professor de português ensinando que crase é a junção do artigo “a” com a preposição “a”. Crase é a+a, lembra? Não lembra? Calma, não entre em pânico! Veja os exemplos abaixo e você vai se lembrar:

Vou à escola amanhã. Equivale dizer: vou a(para) a escola amanhã.

Bateu à porta. Equivale dizer: bateu a(em) a porta.
Entregou os óculos à tia. Equivale dizer: entregou os óculos a(para) a tia.

Você, que é um leitor esperto, deve ter percebido que a crase só apareceu antes de nomes ou substantivos femininos (à escola, à porta, à tia), pois um dos “a” que forma a crase corresponde ao “a” que acompanha o feminino. Com base nessa lógica, formulei três dicas infalíveis para você nunca mais errar. Guarde bem:

1. Não há crase antes de verbos. É lógico! Verbo não tem gênero. Não é masculino nem feminino. Logo, ele não pede um dos “a” que forma a crase.

Exemplos: prazo a contar, imagem a preservar, valores a somar, compras a fazer, tarefas a cumprir, pagamento a combinar

2. Não há crase antes de elementos masculinos. Elementar, meu caro leitor! Ou você coloca “a” antes de coisas de macho?

Confira: vendas a prazo, fogão a gás, passeio a cavalo, avião a jato, traje a rigor, ferro a vapor, entregou a João, dirigiu-se a São Paulo, bem-vindo a Vinhedo

3. Só há crase antes de elementos femininos. Essa eu nem preciso explicar, né?

Veja: vou à empresa, chego à uma hora, chego às 11 horas, vou à secretaria, terminei às pressas,
bem-vindo à Bahia, estou à espera

PORÉM… fique esperto. NEM SEMPRE HÁ CRASE ANTES DE ELEMENTOS FEMININOS. Isso acontece quando o “a” é apenas artigo ou apenas preposição. Veja só: perguntei a Maria (perguntei para Maria), fogão a lenha (fogão de lenha), feito a mão (feito com mão), ensino a distância (ensino em distância), casa a venda (casa para venda)

Sei que você pode estar espumando de raiva agora, imaginando que eu o enganei com minhas dicas infalíveis etc e tal. Se a dica é infalível, como pode ela ter uma exceção? Eu me defendo: você já viu regra de português que não tem exceção??? Mas calma, não vou deixar você desamparado. Há uma dica que elimina 90% das dúvidas nesses casos. É simples: basta substituir o elemento feminino por um similar masculino. Se na substituição aparecer “ao” em lugar do “a”, então há crase. Veja só:

Vire à esquerda tem crase porque um similar seria vire ao lado
Saio à meia-noite tem porque um similar seria saio ao meio-dia
 

Casa a venda não tem porque um similar seria casa a aluguel
Fogão a lenha não tem porque um similar seria fogão a gás

É isso aí: entenda a lógica da crase e você não erra nunca mais!!