Frases de duplo sentido em jornais

13/04/2009

Vejam só o que os redatores de respeitáveis veículos de comunicação andam aprontando.

A foto abaixo foi capturada do Globo.com por meu irmão, Leonardo Giannetti. Saca só:

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Já pensou bater no alto de um viaduto, despencar por um túnel que atravessa o centro da Terra e aparecer no meio da Praça da Paz Celestial, em plena China? Sinistro… Bem, a chamada dá abertura para pensar tamanha bobagem. Mas se fosse algo como “Na China, caminhão bate e por um triz não cai”, ah, bom, foi só uma proeza de caminhoneiro chinês.

Outra pérola do duplo sentido recolhi da home do Estadão online em 20/2/09: “Cadeira de rodas se move pelo cérebro”.

Não sei como você interpretou essa manchete, mas  minha primeira reação foi imaginar uma nano-cadeira de rodas passeando pelos sulcos da massa cinzenta de alguém… Bem, poderia também ser uma cadeira de rodas normal deslizando num mega cérebro, talvez uma escultura dessas exposições de arte moderna. Nunca se sabe.

Mas, é claro, o real significado desse magnífico título nada tem a ver com minha imaginação. A matéria fala de uma cadeira de rodas elétrica, comandada por ondas cerebrais. É isso. Causaria menos estranheza um título como “Cadeira de rodas é movida pelo cérebro”. Melhorou?

Será que essas frases fazem parte de uma estratégia para gerar muitos page views?


Pleonasmos redundantes

03/11/2008

Outro dia, ao fuçar a Wikipedia, encontrei um artigo muito interessante sobre “tautologia”, o uso de palavras diferentes para expressar uma mesma idéia. Sinônimo de pleonasmo e redundância, a tautologia se revela em construções como “subir para cima” ou “descer para baixo”. Nem sempre, porém, as redundâncias são tão gritantes como nos exemplos que acabo de citar. Há muitas outras expressões do gênero que freqüentam quase despercebidamente nossas falas e textos. Aí vão algumas delas: fique ligado!

. novo lançamento (você já viu algum lançamento velho?)

. resumo sintético (se não é sintético, não é resumo)

. elo de ligação (elo é o que liga, faz conexão)
.
 acabamento final (sem comentários)
. certeza absoluta (será que dá para ter uma certeza relativa?)
. em duas metades iguais (e poderiam ser diferentes?)
. sintomas indicativos (sintoma é aquilo que indica)
. há 10 anos atrás (ou você diz “há 10 anos” ou “10 anos atrás”)
. vereador da cidade (do Estado é que não poderia ser)
. outra alternativa (alternativa é sinônimo de “outra opção)
. detalhes minuciosos (detalhe é sinônimo de minúcia)
. conviver junto (conviver é viver junto)
. fato real (você já ouviu falar de fato fictício?)
. encarar de frente (dá para encarar de costas?)
. amanhecer o dia (e anoitecer a noite…)
. empréstimo temporário (se fosse definitivo, seria doação)
. surpresa inesperada (se fosse esperada, não seria surpresa)
. escolha opcional (escolher já é optar)
. planejar antecipadamente (planejar é antecipar ações)
. abertura inaugural (conclusiva é que não poderia ser)
. comparecer em pessoa (até inventarem a projeção holográfica, não dá para comparecer de outro jeito)
. gritar bem alto (dá para gritar baixo?)
. propriedade característica (toda propriedade é também uma característica)
. demasiadamente excessivo (totalmente demais!)
 
Esses pleonasmos são mesmo redundantes, heim?
 

 



 


Erro de concordância verbal (2)

06/10/2008

Acabo de ver na home do estadão.com.br a seguinte chamada:

Votos tucanos elegeram Kassab, diz marqueteiro. Para Raul Lima, confusão entre Alckmin e Kassab atrapalharam“.

Ôps! Olha o erro gritante de concordância verbal aí. O correto é confusão entre Alckmin e Kassab atrapalhou, pois o substantivo “confusão” é o núcleo do sujeito.

Pensei que tivesse sido distração do repórter, mas não foi. Na matéria em página interna, o erro se repete:

“… confusão entre o candidato tucano e o atual prefeito prejudicaram a campanha pela prefeitura.”

Não é à toa que “concordância verbal” seja campeão absoluto de preferência neste blog. As pessoas apanham um bocado desse tema da gramática!

Leia também o artigo Mais dicas de concordância verbal


“Que precisa” ou “de que precisa”?

20/08/2008

Uma propaganda de televisão da Petrobras diz o seguinte:

Para garantir a energia que o Brasil precisa, a Petrobras….”

Percebe o erro na frase? Sem essa de energia que o Brasil precisa: o correto é energia de que o Brasil precisa. O verbo “precisar” pede a preposição “de”, pois quem precisa, precisa de alguma coisa. A preposição  ”de” tem de acompanhar o verbo, sempre, não importa como a frase seja articulada. Por exemplo:

O Brasil precisa de energia.
De que o Brasil precisa?
Esta é a energia de que o Brasil precisa.

Esse “causo” pertence a uma seção da gramática denominada “Regência Verbal”. Prometo em breve postar um artigo sobre o assunto.


Frase mal construída (2)

11/08/2008

Veja que frase capenga o apresentador do Jornal da Band disparou ao comentar a abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim:

“… Ao lado do porta-bandeira da delegação chinesa desfilou o menino Li Hao, herói nacional, sobrevivente do terremoto ocorrido em maio, que matou 70 mil pessoas e salvou dois colegas soterrados…

Do jeito que o apresentador falou, dá a impressão de que quem salvou dois colegas soterrados foi o terremoto. Mas não foi isso que ele quis dizer, claro: quem salvou os colegas foi o menino. Uma construção alternativa para a frase seria:

“… Ao lado do porta-bandeira da delegação chinesa desfilou o menino Li Hao, um herói nacional. Sobrevivente do terremoto ocorrido em maio, que matou 70 mil pessoas, Li Hao salvou dois colegas soterrados…”

Boa parte das frases mal construídas seria evitada se seus ilustres autores deixassem claro de quem estão falando. Fique ligado!


Erro de concordância verbal com porcentagem

11/08/2008

Esta pérola saiu no jornal O Estado de São Paulo de 8 de agosto. É o título de uma matéria do caderno Cidades:

“Violência contra a mulher – 61,5% das agredidas sofre ataque diário”

O correto é “sofrem”, para concordar com o sujeito ”61,5% das agredidas”, que está no plural. Fica assim: 61,5% das agredidas sofrem..

Mas vamos aproveitar o gancho para falar de concordância verbal envolvendo porcentagens, que sempre levanta dúvidas. Há três situações possíveis:

1. Quando se menciona o “todo” do qual é extraída a porcentagem, o verbo concorda com a expressão do “todo”. Por exemplo: Apenas 1% dos candidatos foram aprovados. Essa concordância está correta, pois “foram aprovados” deve concordar com “candidatos”, que é o “todo” – e está no plural. Veja mais estes exemplos:
Cerca de 10% da verba foi liberada
32% dos habitantes da cidade emigraram
Foram analisadas
60% das respostas da pesquisa

2. Quando não se menciona o “todo”, o verbo concorda com o número da porcentagem. Por exemplo: 80% votaram em José da Silva. Mais exemplos:
1% acredita nos políticos
60% apóiam a Lei Seca

3. Quando se usa uma expressão que designadora do numeral, o verbo concorda com a expressão. Ok, ok, isso aqui parece complicado, mas analise o exemplo que você saca rápido: Aquele 1% de eleitores acredita nos políticos. Veja, aqui o verbo “acredita” concorda com “aquele”, que é uma expressão designadora do numeral “1″. Mais exemplos:
Nossos 15% da comissão estão garantidos
Este 1% dos entrevistados acredita nos políticos 

Parece complicado, mas tem lá sua lógica… E em português, entender a lógica é quase todo caminho andado. Veja também: mais dicas de concordância verbal.


“A uma hora” ou “há uma hora”?

29/07/2008

Veja só a frase do relógio de parede que encontrei num restaurante:

 

Pelo visto, o designer do relógio já tinha bebido um bocado quando escreveu a frase. Em uma expressão de apenas quatro palavras, conseguiu cometer dois erros: a uma hora atrás.

Em lugar do “a”, o correto é usar “há”, do verbo haver, já que a frase pede verbo (equivale a faz uma hora ). Por sua vez, o “atrás” está causando uma redundância. Ou você diz há uma hora ou diz uma hora atrás. Os dois juntos, há uma hora atrás, é o mesmo que subir para cima ou descer para baixo.

Vamos então acertar o relógio: “Há uma hora voltei a beber“.
A propósito, se tiver que escrever, não beba  ;-)


Frase mal construída (1)

11/07/2008

Esta frase foi uma das chamadas do Jornal Nacional na noite passada (10/7):

“…E o Senado inventa mais de noventa cargos para ganhar 10 mil por mês.”

Percebe o problema? Do jeito que a frase foi construída, entende-se que o Senado criou  os cargos para ele próprio ganhar 10 mil reais. Mas não foi isso que o apresentador do jornal quis dizer, como ficou claro depois. Na verdade, os contratados para o cargo é que vão ganhar 10 mil reais.

Para ser clara e precisa, a frase deveria explicitar o sujeito que rege o verbo “ganhar”, assim: O Senado inventa mais de noventa cargos, e os contratados vão ganhar 10 mil reais”

Outra possibilidade é mudar a frase, tirando de cena o verbo “ganhar”: O Senado inventa mais de noventa cargos com salários de 10 mil reais.

Que o erro do Jornal Nacional, porém, não desvie nossa atenção de mais essa demonstração de pouca-vergonha do Senado. E tenho dito.


Erro de ortografia (2)

04/07/2008

Veja só o detalhe do cardápio de uma lanchonete:

Esse é o tipo do lugar em que você precisa pedir “um chopps e dois pastel”, senão o balconista não entende o que você quer….

Só para constar, a grafia correta das palavras erradas: salsicha, stick, empada, croissant.


Erro de concordância (1)

04/07/2008

Esta pérola eu colhi na embalagem do pão Nutrella Sete Grãos, que como todos os dias de manhã:

4 fatias = 25% de vitaminas A, D, E e cálcio do % de valores diários recomendado.

Frasinha indigesta essa também, heim? Quando a gente a lê, ela soa assim: Quatro fatias igual a 25% de vitaminas A, D, E e cálcio do por cento de valores diários recomendado. Não bastasse a redação ser toda torta, ainda tem um medonho erro de concordância no final: valores diários recomendado não, recomendados!

Sugestão para o pessoal da Nutrella melhorar a embalagem:

4 fatias = 25% dos valores diários recomendados de vitaminas A, D, E e cálcio.


Pontuação – que diferença faz uma vírgula…

02/07/2008

Para quem escreve seus e-mails na pauleira, sem fazer pontuação “para não perder tempo”, aí vai um bom exemplo da diferença que uma vírgula pode fazer no sentido de uma frase:

Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria de quatro à sua procura.

Interpretação feminina: Se o homem soubesse o valor que tem a mulher, andaria de quatro à sua procura.

Interpretação masculina: Se o homem soubesse o valor que tem, a mulher andaria de quatro à sua procura.

Agradeço ao aluno Luiz Testani, que me presenteou com esta pérola semanas atrás.


Erro de ortografia (1)

02/07/2008

No lugar em que esta foto foi tirada, parece que servem um suco de pó de guaraná realmente muito especial:

Pena que a gente demore um pouco para entender que “a flor de zíaco” é uma maneira bem peculiar de escrever “afrodisíaco”, não?


Vocabulário (1)

02/07/2008

Esta pérola veio de um repórter do Jornal Nacional, na edição de hoje (1/7). Ele falava sobre os efeitos da lei que proíbe a circulação de caminhões no centro expandido de São Paulo para a redução dos congestionamentos na cidade. A certa altura, disse o seguinte: 

“Toda essa confusão se deve à lei que proíbe o trânsito de caminhões das 5h às 21h num raio de 100 km do centro de São Paulo.”

Se a lei tivesse o alcance geográfico que o repórter disse ter, o trânsito de caminhões seria proibido até nas cidades de Campinas e Santos, por exemplo. Ele errou feio ao usar o termo “raio”, que por definição é um segmento de reta que liga o centro do círculo a qualquer ponto de sua circunferência. Algo que sai do centro de Sampa e se estende por 100 km vai dar lá em Sorocaba! O certo é que os caminhões estão proibidos de circular em uma área de 100 quilômetros quadrados.

De repente estou em dúvida se essa é uma pérola do português ou da matemática… Pelo jeito, o repórter matou muita aula na escola.