Outros vícios de linguagem

21/09/2008

No artigo “Será que você tem vícios de linguagem?”, abordei a repetição de palavras e expressões que empobrecem nosso modo de falar. Neste aqui trato de expressões que utilizamos errada ou indevidamente, também consideradas vícios de linguagem. Há certas coisas que aprendemos a falar errado e continuamos falando vida afora, sem nem suspeitar que estão erradas! Será que você tem esse tipo de vício também? Para saber, dê uma olhada nos exemplos a seguir.

 

Independente do que as pessoas pensam, já tomei minha decisão.

Independente é adjetivo: por exemplo, país independente, criança independente. Não é o caso de usar adjetivo na frase acima, e sim o advérbio independentemente, que se refere a o que as pessoas pensam. 

 

Sua blusa está meia amassada.

O correto é meio amassada. “Meio” é advérbio e equivale a dizer “um pouco amassada”.

 

Algumas pessoas soam muito no calor.

Quem soa é sino. As pessoas suam.

 

Ouvi essa história há muito tempo atrás.

O correto é há muito tempo ou muito tempo atrás. As duas coisas juntas são redundância ou pleonasmo vicioso, como “subir para cima” e “resumo sintético”.

 

Tratava-se de um problema a nível de relacionamento.

O certo é simplesmente problema de relacionamento. “Ao nível de” equivale dizer “à altura de” e não cabe no contexto da frase acima.

 

Voltei por causa que senti saudade.

Jamais se diz por causa que. O certo é simplesmente por que.

 

A falta de estrutura que o município se encontra é deplorável.

O certo é em que. Trata-se de um erro de regência verbal.

 

Haviam 20 pessoas presas. 

O correto é havia. O verbo haver, usado com o sentido de existir, fica sempre no singular.

 

Fazem três horas que estou aqui.

O certo é faz. O verbo fazer, usado para indicar passagem de tempo, fica sempre no singular.

 

Na situação onde a maioria das pessoas se encontra, não há nada a fazer. 

O certo é em que. O advérbio “onde” só pode ser usado como equivalente de “o lugar em que”.

 

Estarei apresentando minha idéia agora.

Correção: vou apresentar ou apresentarei. Estarei apresentando é gerundismo.

 

A equipe que as vendas superarem as metas será premiada.

O certo é dizer cujas vendas. O pronome “cujo (a)” equivale a “de que” ou “do qual”.

 

A reunião começa ao meio dia e meio.

Meio dia e meio é um dia inteiro! O certo é meio dia e meia, já que “meia” diz respeito a “meia hora”.

 

A temperatura esta noite será de zero graus.

O certo é zero grau, já que zero é singular.

 

O gerente é o que tem menas chances de ser promovido.

O certo é menos. Por ser advérbio, “menos” não aceita flexão de gênero (masculino/feminino) nem número (singular/plural).

 

Espero que nossa empresa seje uma das líderes de mercado este ano.

“Seje” não existe na conjugação do verbo ser. O certo é seja.

 

Leia também artigos sobre o concordância verbal, o uso do pronome cujo, o uso do advérbio onde, gerundismo.


Será que você tem vícios de linguagem?

18/08/2008

Sim, é bem provável que você tenha pelo menos um vício de linguagem. A maioria de nós tem, por motivos que veremos mais adiante. Mas vamos começar este artigo pelo ponto de partida: de que vícios estamos falando?

 

Os gramáticos definem vícios de linguagem como desvios da norma-padrão (o português correto). Quem trabalha como oratória também usa o termo para referir-se a palavras, expressões e gírias que usamos a todo instante, e são esses casos que abordo aqui. Por exemplo: , não é?, certo?, , entende?, , hum, ééé, enfim, quer dizer, sabe?, olha só, então e outros. O gerundismo – a mania de dizer vou estar ligando e similares – também é um vício de linguagem.

 

O uso repetitivo de certas expressões deve ser combatido, pois empobrece nossa linguagem, cansa os interlocutores e chega a ser motivo de piada. Você mesmo já não tirou um barato de alguém que a todo instante falava “compreende?” ou terminava cada frase como um “”? Pois então. Somos bons em identificar os vícios dos outros. Só não conseguimos perceber os nossos próprios, mesmo porque são automáticos, são cacoetes.

 

O hábito é um dos fatores que fazem surgir vícios de linguagem. Um típico exemplo são as pessoas que usam o gerundismo: elas se acostumaram a dizer que vão estar fazendo isso e aquilo e usam essa forma de expressão a todo instante. O mesmo acontece com alguns jovens em relação a gírias. Meus filhos, que são adolescentes, não completam uma frase sem dizer tipo, ou velho. Um diálogo entre eles é mais ou menos assim:

 

- Nossa, velho, tô mó com fome!

- Tipo eu ontem, mó esqueci de levar o lanche pra escola.

- Mó estômago roncando, velho.

 

Muitas pessoas também caem nos vícios de linguagem porque sua fala é mais rápida que o pensamento. Enquanto o cérebro organiza as idéias, a boca continua falando – e como o pensamento não está completo surgem o né?, o entende ou o enfim, palavras que não dizem nada, apenas ocupam as brechas entre as idéias.

 

Você talvez esteja se perguntando como descobir seus vícios de linguagem. Bem, é muito simples. Basta observar-se para saber se repete alguma palavra ou expressão com muita freqüência. Se essa prática de auto-observação for difícil para você, grave suas conversas ao telefone, por exemplo, ou pergunte às pessoas mais próximas (e sinceras) se elas percebem vícios em sua fala.

 

Tornar-se consciente de um vício de linguagem é o primeiro passo para livrar-se dele. Caso você tenha algum por questão de hábito, eduque-se para não repetir o hábito. Caso seu problema seja falar mais rápido do que pensa, treine-se para falar mais pausadamente: com isso, você dará tempo para completar o pensamento e evitará os enfim, e quer dizer. Foi assim que me livrei do incômodo que usava repetidamente quando comecei a dar cursos. Certo dia me deram um toque que eu falava muito essa expressão, e a partir daí comecei a me policiar e falar mais pausadamente, até banir o de minhas frases.

Leia também: artigo sobre gerundismo


Abaixo o gerundismo!

30/06/2008

 

Certa vez, numa loja de presentes, perguntei à vendedora se determinado artigo estava disponível em cores diferentes da exibida na vitrine. Ela respondeu: “Um minutinho por favor, estarei verificando o estoque”. Logo depois, voltava para me dizer: “Infelizmente não vamos estar tendo o produto nessas cores que a senhora pediu…” Ainda bem que a loja não tinha o que eu procurava, pois eu não agüentaria ouvir a fala afetada da vendedora por muito tempo. Por que não dizer simplesmente “vou verificar o estoque” ou “não temos as cores a senhora pediu”?

 

Eis aí um típico exemplo de gerundismo, um vício de linguagem que, apesar de duramente combatido, ainda sobrevive na fala de muita gente. Na agência bancária, o gerente diz que “vai estar solicitando” o meu extrato. No atendimento telefônico, alguém anuncia que “vai estar transferindo” a ligação para o setor competente. No restaurante, o garçom pergunta se eu gostaria de “estar experimentando” a especialidade da casa.

 

Parece que as pessoas falam assim porque acham bonito, chique ou mais educado dizer “vou estar tendo” em lugar de simplesmente “tenho”. Só que, em vez de demonstrar boa educação e cultura, estão falando abobrinha. A praga do gerundismo origina-se de erros de tradução dos manuais de telemarketing, importados dos EUA. Algum tradutor perneta deve ter visto uma frase do tipo “I will be calling” e mandou ver um “estarei ligando” na tradução, quando o certo seria apenas “vou ligar“.

 

Bom, chega de bronca. Vamos falar sobre o gerúndio corretamente empregado, que é o que realmente interessa.

 

Só para relembrar, gerúndio é uma forma verbal que descreve uma ação em curso – ou seja, algo que está, estará ou esteve acontecendo. Exemplos de verbos no gerúndio: levando, perdendo, fingindo, compondo.

 

Sozinho, o gerúndio não faz sentido; por isso, precisa ser associado com outros verbos que indicam a pessoa, o tempo e o modo da ação. Por exemplo:

Ela está trabalhando duro esta semana.
Estive lendo a noite inteira.
Amanhã, a esta hora, estaremos viajando para a França.

É nessa associação que o pessoal exagera, criando formas rocambolescas para dizer coisas simples. A associação dos verbos vou, estar e tendo, por exemplo, só é adequada para descrever uma ação contínua futura. Se alguém perguntar o que você estará fazendo amanhã de manhã, você poderá responder, com toda propriedade: “vou estar trabalhando” ou “estarei trabalhando”, o que é ainda melhor. Agora, se alguém pergunta se você tem um telefone celular para emprestar, não tem nada que dizer “sim, vou estar tendo”: diga simplesmente “tenho”, ora bolas.  

 

 Pense duas vezes antes de usar o gerúndio. Se em vez de dizer “vou estar ligando” você puder dizer “vou ligar”, fique com a segunda opção.O uso inadequado do gerúndio está para a língua portuguesa assim como o babado no punho da camisa está para a moda: nada a ver!

 

Veja também: artigo sobre vícios de linguagem